segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ventos e Marcas.


Queria ser um gramado bem aparado. Destes que dá gosto de ver. Queria ser livre de falhas e falsas pinturas.

Em cada pessoa há uma marca. Uma marca profunda. Se observadas de fora, são como pequeninos flocos de gelo que planam ao vento. Só os vemos nos poucos segundos que, carregados pelos ares, surgem na nossa frente. Depois, os flocos continuam a planar e as marcas a existir e perdurar por tempo indeterminado.

O tempo de cada marca é único. Não se pode intervir no viver de uma marca, mesmo esta sendo sua. Digo isso pois o tempo é justo com cada situação. Cada uma se acaba e se apaga por si só. Porém, o apagar-marcas é tarefa de quem as têm.

Não é fácil encontrá-las. Não é fácil encará-las. As marcas, muitas vezes, possuem olhos de cobrança, de vergonha e de dor. Algumas possuem olhos doces e chegam até a sorrir. Estas, raríssimas, elevam a alma aos céus. Quando estas encontramos, devemos sorrir, respirar fundo e recarregar as energias para novas batalhas.

Viver não é tão simples quanto parece. Quando os tempos de ignorância acolhem nossas mentes os critérios caem, as boas vibrações escorrem pelos dedos e... definhamos por aí. Já quando os tempos de reflexões contemplam nossas cabeças com o discernimento necessário, vivemos em paz.

Mais fácil é evitar do que remediar. O remédio pode ser amargo e a dose compatível com a enfermidade. Porém, nadar até o outro lado do rio nem sempre é perigoso. Observe as correntezas e mantenha um pé sempre de encontro ao solo. Sê cauteloso.

Bons ventos virão.


Gutto

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Os dois lados da moeda.


Há 3 dias estou desfrutando de umas férias inventadas. Digo férias inventandas porque, talvez, atores, músicos e artistas em geral, não façam parte do rol de profissões convencionais de carteira assinada e décimo terceiro salário.

Quando o ano inicia, sinto como se estivesse com a passagem comprada para a praia. O mês escolhido quase que inconscientemente é dezembro. Se tudo correr bem, quem sabe, alguns dias de janeiro acabam acomodando-se no prazo. Assim, fecho os olhos, abro-os novamente e... PÁ! Estou sentado naquela areia fofa em uma cadeira amarela - de plástico e com a marca de alguma cerveja, olhando o mar de poucas ondas espumadas.

Não uso relógio - falta de costume ou de paciência - e quando estou na praia não sinto necessidade de andar com o celular, mas a certeza de tempo passando é fenomenal. Trinta segundos! Em trinta segundos aparecerá ao norte de onde aponta minha retina algum ambulante vendendo alguma coisa que, naquele momento, certamente não me interessará:

- ÓIA O QUEIJO! ASSA NA HORA!

- ÓIA A CASTANHA! VAI AÍ FREGUESIA, SEM COMPROMISSO!

- ÓCULOS ESCUROS! PREÇO BOM!

- ÓIA O PASSEIO DE ESCUNA!

- ÓIA O MILHO! TÁ QUENTINHO, MELHOR MILHO DA PRAIA!

- TATUAGEM DE RENA! SÓ ESCOLHER!

Com exceção do milho e dos passeios de escunas no Pérola Negra, os demais vendedores praianos quase enfiam a mercadoria dentro dos nossos narizes. Decidi este ano não responder a nenhum. Nem sim nem não, nem nada! Simplesmente ignorá-los. Afinal, se tivesse que responder a todos que me oferecem algo de trinta em trinta segundos existiria grande chance de perder a cabeça e chamá-los aos berros de inconvenientes.

Lembro-me de Porto Alegre, onde os vendedores ambulantes que comercializavam as mercadorias de procedência duvidosa foram proibidos de perambular pelas ruas, designados assim, por lei, a levantar uma tenda no camelódromo. Já estas criaturas que cicatrizam as praias com suas peles absurdamente bronzeadas e maltratas pelos raios ultra-violeta ainda circulam com o pão de cada dia nas mãos, na cabeça, nas costas e onde mais conseguirem carregar.

Por sorte tenho momentos de reflexão dentro do ócio que conquistei a partir de minha própria vontade. Sinto-me pesado. Jamais queria ter desenvolvido um pensamento de repulsão por estes irmãos, lutadores da praia, cada qual com seu sotaque, sua tática, persuasão, necessidade e histórias.

Amanhã irei à praia. Mas antes, dormirei em boa cama, chicotearei de olhos fechados algumas atitudes e, silenciosamente, perdoarei minha alma com coragem e reflexão. Já os ambulantes dormirão na praia, alguns em casebres com largas frestas de cupins, e outros talvez nem descanso terão. Estarão lá com os mesmos ganha-pães nas costas, nas cabeças e onde mais puderem carregar.

Espero negar as investidas, e, quem sabe, até sorri, brincar, imitar os sotaques, passar algo de bom, olhá-los nos olhos, sei lá...





Gutto

sábado, 12 de dezembro de 2009

Dedos.

Nunca imaginei que palavras costuradas por momentos de inquietude, pudessem fazer alguém parar diante de uma tela de computador e ler aquilo que escrevi. Se isto acontece, se você está aqui, se costura estas mesmas palavras movendo seus olhos da esquerda para a direita sobre estas linhas, talvez sejamos, de certa forma, parecidos.

Quando o tempo nubla meu coração aperta. Não creio que o céu cinzento e as rajadas de ventos gelados, com suas minúsculas partículas de águas que voam em direções diversas, sejam os fatores determinantes para emergir angústias em quem quer que seja. O momento de calar e olhar para dentro são impostos pelas reflexões de nossos erros, acertos e momentos de ignorância. Faça chuva ou faça sol.

Recentemente adotei uma frase proferida por uma alma linda e abnegada. “Tomar do arado, e não olhar para trás”. Em tudo o que vivemos, adquirimos algum aprendizado. Hoje as portas se abrem, amanhã se fecham e lá estamos nós, andando de um lado para o outro. O ser humano é humanizado pela dor e pela consciência.

A chuva forte, a tormenta, e os ventos devastadores somente surgem quando ficamos frágeis. O nublar do dia não nos torna frágeis. Não nos basta equilibrar o corpo. Se a ligação corpo e mente não se estabelece, nem um nem outro adquire êxito na mudança para o “ser” melhor.

Quero ser melhor. Para isso, espero saber ficar o tempo necessário, somente o necessário para o meu entendimento em cada degrau que minhas pernas alcançarem.

Hoje parei para analisar dois dedos de minhas mãos. Há alguns dias eles queimam de dentro para fora e nada vejo externamente. Poderia ficar dias repousando-os na água gelada, mas, prefiro antes, senti-los com carinho, paciência e compreensão. Talvez eles tenham algo a me dizer... E eu estarei aqui. Presente.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Jogo da vida.

A vida é repleta de ciclos. E estes ciclos podem durar um dia, um mês, uma hora, um minuto, ou, quem sabe, vidas.

Se escrevo é porque tenho medos, angústias, frustrações, dúvidas e arrependimentos. Você é diferente de mim, talvez a ti, agrade escrever felicidades, boas sensações e bem-estar. Mas isso não nos diferencia da condição de ser humano. Somos feitos da mesma massa densa. Corre em nossas veias sangue vermelho, temos unhas e produzimos saliva.

Mas algo diferente acontece entre as pessoas. Umas são mais sorridentes, outras mais sérias, umas sorriem gostoso, outras apenas esboçam um tímido levantar de lábios, umas contam verdades, outras contam mentiras. Mas pensando bem, o que vale é saber jogar. O jogo da vida é estranhamente complexo, pois temos que jogar com nós mesmos e ao mesmo tempo com os outros. Essa relação interativa é curiosamente difícil de ser controlada.

Um dos grandes segredos é jogar limpo. Primeiramente jogar limpo consigo mesmo. Ter consciência de onde aperta seu sapato. Depois jogar limpo com os outros. Mas falando parece muito simples, não é?

Nunca teremos a possibilidade de voltar atrás no tempo. Isso não nos é permitido. Teremos que ser fortes o suficiente para lidar com esta informação. O jogo da vida tem duas etapas. A primeira é o hoje, o agora. A segunda é o amanhã e o "depois do agora". Quanto ao ontem... Bom o ontem será apenas o combustível para o seu veículo funcionar e te alavancar para coisas melhores.

O fato é que, se não compreender as informações que os teus erros te passam, você poderá repetí-los. Porém, isso não o fará perder o jogo, mas te deixará triste, cabisbaixo e angustiado. Junto a isso, quando olhar para o lado, verás que não está sozinho. Todos escorregam, todos falham algumas vezes. Agora, quando começar a interpretar as informações que o ontem te passa, começará a sorrir mais e precisará de um sapato mais confortável para caminhar, pois quanto mais entender o significado de viver, mais pedras aparecerão no seu caminho e a estrada ficará mais esburacada.

O forte caminhará com o tônus digno da escolas dos erros.

Que todos nós, algum dia, possamos receber a glória de chorar.

Deus ilumine seu jogo.


Gutto

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

CRITIQUE-SE?

Sentei-me para comer um risoles de frango num estabelecimento da universidade na qual estudo. Olhei para o salgado recém frito e pensei, "A cara está ótima!". Coloquei-o em uma bandeja coberta por dois guardanapos de papel e procurei cuidadosamente uma mesa para sentar e degustar aquela iguaria. Ao acomodar-me, percebi que três pessoas conversavam em uma mesa próxima:

- O cara tem 4 filhos! Dois com uma mulher e agora mais dois com a outra.
- É, isso é um problema. O lance é se planejar. Sem planejamento nada sai certo.
- Pois é, sem planejamento a coisa complica.

Estava no terceiro pedaço de meu manjar afrodisíaco quando parei involuntariamente para refletir sobre as afirmações que acabara de ouvir.

Quer dizer que sem planejamento nada sai certo? Meu Deus! Agora tudo está claro em minha mente. Na verdade não está! Quem é você? Como você afirma isto com tanta certeza?

Existem pessoas que valem-se de suas experiências como certezas de uma vida exemplar e padrão.

Default! Default!

As outras possibilidades de encarar a existência terrestre são, além de criticadas, taxadas como incorretas e irresponsáveis. Que homem irresponsável este que teve 4 filhos sem se planejar, não é?

A crítica é a opinião que surge de uma mente com suas influências a partir de suas prioridades e valores. A crítica é uma forma muito perigosa de demonstrar insegurança e frustrações adquiridas ao longo da vida.

Existe uma crítica verdadeira? Existe uma crítica construtiva? Que papo é esse? Que intuito se tem ao criticar algo ou alguém?

Tive a oportunidade de perceber, neste pouco tempo em que exerço minhas experiências na vida, que a melhor forma de crescimento é o auxílio. A crítica é uma oposição ao auxílio. A crítica carrega uma essência pesada e ruim.

A palavra CRÍTICA é pesada! Seu sentido é negativo. Digo isso por mim. É o que sinto quando ouço CRÍTICA e leio CRÍTICA.

Cuide-se ao afirmar seus valores e ou frustrações perante uma história alheia. Podem tomar o que você diz como verdade.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Coisa simples.

Costumo dormir de barriga para baixo. Tic, tac, tic, tac...

Me viro de um lado, me viro de outro.

Dormir é uma tarefa difícil. Alto da madrugada acordo. Ora é o braço direito, ora é o braço esquerdo, ambos formigam pela falta de circulação de sangue. Minguinhos e anelares inertes, mortos temporariamente não respondem aos comandos. Corpo relaxado e mente inquieta. Dobro o travesseiro. Desdobro. Ansiedade, zumbido no ouvido. A tensão do dia que está se pondo direciona-se totalmente para cima. Como desligar essa massa encefálica responsável pela sobrevivência de um corpo?

Por que tenho pesadelos?

A vida parece-me complicada. Viver, abrir os olhos, caminhar, sorrir, falsear, compreender, interpretar...

Talvez tenha que dar mais importância ao momento de dormir. É isso!

Preocupamo-nos diariamente com os empecilhos e dificuldades que a vida nos impõe (de livre-arbítrio). E, talvez, esquecemo-nos do momento de dormir. Dormir não é deitar na cama para recuperar energias. Dormir é continuar um processo interminável de equilíbrio carnal e espiritual.

Preciso de um travesseiro maior, um colchão sem molas e uma brisa nos pés.

Em grande parte dessas dormidas, desfruto de um abraço recheado de amor e do sorriso mais belo do mundo. Quatro olhos horizontalmente despertam sorrindo. Cada um no seu lado, com suas roupas, com suas maneiras e manias.

Agora, o colchão sem molas...

domingo, 15 de novembro de 2009

Só.

Certo dia, um menino ingênuo sentiu que poderia guardar consigo uma pureza adocicada. Um dia de sol marcou para sempre sua pouca idade com uma sensação estranha.

O menino deixou escapar a dádiva daquela pureza com o passar dos anos. Almeja hoje, com uma ingenuidade madura, reaprender aquilo que um dia soube de graça.

A casa em que sentiu a deliciosa sensação continua modesta.

A certeza de sentir o passado, garante a perenidade de tudo aquilo que nos escapa pelos dedos.