quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Os dois lados da moeda.


Há 3 dias estou desfrutando de umas férias inventadas. Digo férias inventandas porque, talvez, atores, músicos e artistas em geral, não façam parte do rol de profissões convencionais de carteira assinada e décimo terceiro salário.

Quando o ano inicia, sinto como se estivesse com a passagem comprada para a praia. O mês escolhido quase que inconscientemente é dezembro. Se tudo correr bem, quem sabe, alguns dias de janeiro acabam acomodando-se no prazo. Assim, fecho os olhos, abro-os novamente e... PÁ! Estou sentado naquela areia fofa em uma cadeira amarela - de plástico e com a marca de alguma cerveja, olhando o mar de poucas ondas espumadas.

Não uso relógio - falta de costume ou de paciência - e quando estou na praia não sinto necessidade de andar com o celular, mas a certeza de tempo passando é fenomenal. Trinta segundos! Em trinta segundos aparecerá ao norte de onde aponta minha retina algum ambulante vendendo alguma coisa que, naquele momento, certamente não me interessará:

- ÓIA O QUEIJO! ASSA NA HORA!

- ÓIA A CASTANHA! VAI AÍ FREGUESIA, SEM COMPROMISSO!

- ÓCULOS ESCUROS! PREÇO BOM!

- ÓIA O PASSEIO DE ESCUNA!

- ÓIA O MILHO! TÁ QUENTINHO, MELHOR MILHO DA PRAIA!

- TATUAGEM DE RENA! SÓ ESCOLHER!

Com exceção do milho e dos passeios de escunas no Pérola Negra, os demais vendedores praianos quase enfiam a mercadoria dentro dos nossos narizes. Decidi este ano não responder a nenhum. Nem sim nem não, nem nada! Simplesmente ignorá-los. Afinal, se tivesse que responder a todos que me oferecem algo de trinta em trinta segundos existiria grande chance de perder a cabeça e chamá-los aos berros de inconvenientes.

Lembro-me de Porto Alegre, onde os vendedores ambulantes que comercializavam as mercadorias de procedência duvidosa foram proibidos de perambular pelas ruas, designados assim, por lei, a levantar uma tenda no camelódromo. Já estas criaturas que cicatrizam as praias com suas peles absurdamente bronzeadas e maltratas pelos raios ultra-violeta ainda circulam com o pão de cada dia nas mãos, na cabeça, nas costas e onde mais conseguirem carregar.

Por sorte tenho momentos de reflexão dentro do ócio que conquistei a partir de minha própria vontade. Sinto-me pesado. Jamais queria ter desenvolvido um pensamento de repulsão por estes irmãos, lutadores da praia, cada qual com seu sotaque, sua tática, persuasão, necessidade e histórias.

Amanhã irei à praia. Mas antes, dormirei em boa cama, chicotearei de olhos fechados algumas atitudes e, silenciosamente, perdoarei minha alma com coragem e reflexão. Já os ambulantes dormirão na praia, alguns em casebres com largas frestas de cupins, e outros talvez nem descanso terão. Estarão lá com os mesmos ganha-pães nas costas, nas cabeças e onde mais puderem carregar.

Espero negar as investidas, e, quem sabe, até sorri, brincar, imitar os sotaques, passar algo de bom, olhá-los nos olhos, sei lá...





Gutto

sábado, 12 de dezembro de 2009

Dedos.

Nunca imaginei que palavras costuradas por momentos de inquietude, pudessem fazer alguém parar diante de uma tela de computador e ler aquilo que escrevi. Se isto acontece, se você está aqui, se costura estas mesmas palavras movendo seus olhos da esquerda para a direita sobre estas linhas, talvez sejamos, de certa forma, parecidos.

Quando o tempo nubla meu coração aperta. Não creio que o céu cinzento e as rajadas de ventos gelados, com suas minúsculas partículas de águas que voam em direções diversas, sejam os fatores determinantes para emergir angústias em quem quer que seja. O momento de calar e olhar para dentro são impostos pelas reflexões de nossos erros, acertos e momentos de ignorância. Faça chuva ou faça sol.

Recentemente adotei uma frase proferida por uma alma linda e abnegada. “Tomar do arado, e não olhar para trás”. Em tudo o que vivemos, adquirimos algum aprendizado. Hoje as portas se abrem, amanhã se fecham e lá estamos nós, andando de um lado para o outro. O ser humano é humanizado pela dor e pela consciência.

A chuva forte, a tormenta, e os ventos devastadores somente surgem quando ficamos frágeis. O nublar do dia não nos torna frágeis. Não nos basta equilibrar o corpo. Se a ligação corpo e mente não se estabelece, nem um nem outro adquire êxito na mudança para o “ser” melhor.

Quero ser melhor. Para isso, espero saber ficar o tempo necessário, somente o necessário para o meu entendimento em cada degrau que minhas pernas alcançarem.

Hoje parei para analisar dois dedos de minhas mãos. Há alguns dias eles queimam de dentro para fora e nada vejo externamente. Poderia ficar dias repousando-os na água gelada, mas, prefiro antes, senti-los com carinho, paciência e compreensão. Talvez eles tenham algo a me dizer... E eu estarei aqui. Presente.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Jogo da vida.

A vida é repleta de ciclos. E estes ciclos podem durar um dia, um mês, uma hora, um minuto, ou, quem sabe, vidas.

Se escrevo é porque tenho medos, angústias, frustrações, dúvidas e arrependimentos. Você é diferente de mim, talvez a ti, agrade escrever felicidades, boas sensações e bem-estar. Mas isso não nos diferencia da condição de ser humano. Somos feitos da mesma massa densa. Corre em nossas veias sangue vermelho, temos unhas e produzimos saliva.

Mas algo diferente acontece entre as pessoas. Umas são mais sorridentes, outras mais sérias, umas sorriem gostoso, outras apenas esboçam um tímido levantar de lábios, umas contam verdades, outras contam mentiras. Mas pensando bem, o que vale é saber jogar. O jogo da vida é estranhamente complexo, pois temos que jogar com nós mesmos e ao mesmo tempo com os outros. Essa relação interativa é curiosamente difícil de ser controlada.

Um dos grandes segredos é jogar limpo. Primeiramente jogar limpo consigo mesmo. Ter consciência de onde aperta seu sapato. Depois jogar limpo com os outros. Mas falando parece muito simples, não é?

Nunca teremos a possibilidade de voltar atrás no tempo. Isso não nos é permitido. Teremos que ser fortes o suficiente para lidar com esta informação. O jogo da vida tem duas etapas. A primeira é o hoje, o agora. A segunda é o amanhã e o "depois do agora". Quanto ao ontem... Bom o ontem será apenas o combustível para o seu veículo funcionar e te alavancar para coisas melhores.

O fato é que, se não compreender as informações que os teus erros te passam, você poderá repetí-los. Porém, isso não o fará perder o jogo, mas te deixará triste, cabisbaixo e angustiado. Junto a isso, quando olhar para o lado, verás que não está sozinho. Todos escorregam, todos falham algumas vezes. Agora, quando começar a interpretar as informações que o ontem te passa, começará a sorrir mais e precisará de um sapato mais confortável para caminhar, pois quanto mais entender o significado de viver, mais pedras aparecerão no seu caminho e a estrada ficará mais esburacada.

O forte caminhará com o tônus digno da escolas dos erros.

Que todos nós, algum dia, possamos receber a glória de chorar.

Deus ilumine seu jogo.


Gutto