Há 3 dias estou desfrutando de umas férias inventadas. Digo férias inventandas porque, talvez, atores, músicos e artistas em geral, não façam parte do rol de profissões convencionais de carteira assinada e décimo terceiro salário.
Quando o ano inicia, sinto como se estivesse com a passagem comprada para a praia. O mês escolhido quase que inconscientemente é dezembro. Se tudo correr bem, quem sabe, alguns dias de janeiro acabam acomodando-se no prazo. Assim, fecho os olhos, abro-os novamente e... PÁ! Estou sentado naquela areia fofa em uma cadeira amarela - de plástico e com a marca de alguma cerveja, olhando o mar de poucas ondas espumadas.
Não uso relógio - falta de costume ou de paciência - e quando estou na praia não sinto necessidade de andar com o celular, mas a certeza de tempo passando é fenomenal. Trinta segundos! Em trinta segundos aparecerá ao norte de onde aponta minha retina algum ambulante vendendo alguma coisa que, naquele momento, certamente não me interessará:
- ÓIA O QUEIJO! ASSA NA HORA!
- ÓIA A CASTANHA! VAI AÍ FREGUESIA, SEM COMPROMISSO!
- ÓCULOS ESCUROS! PREÇO BOM!
- ÓIA O PASSEIO DE ESCUNA!
- ÓIA O MILHO! TÁ QUENTINHO, MELHOR MILHO DA PRAIA!
- TATUAGEM DE RENA! SÓ ESCOLHER!
Com exceção do milho e dos passeios de escunas no Pérola Negra, os demais vendedores praianos quase enfiam a mercadoria dentro dos nossos narizes. Decidi este ano não responder a nenhum. Nem sim nem não, nem nada! Simplesmente ignorá-los. Afinal, se tivesse que responder a todos que me oferecem algo de trinta em trinta segundos existiria grande chance de perder a cabeça e chamá-los aos berros de inconvenientes.
Lembro-me de Porto Alegre, onde os vendedores ambulantes que comercializavam as mercadorias de procedência duvidosa foram proibidos de perambular pelas ruas, designados assim, por lei, a levantar uma tenda no camelódromo. Já estas criaturas que cicatrizam as praias com suas peles absurdamente bronzeadas e maltratas pelos raios ultra-violeta ainda circulam com o pão de cada dia nas mãos, na cabeça, nas costas e onde mais conseguirem carregar.
Por sorte tenho momentos de reflexão dentro do ócio que conquistei a partir de minha própria vontade. Sinto-me pesado. Jamais queria ter desenvolvido um pensamento de repulsão por estes irmãos, lutadores da praia, cada qual com seu sotaque, sua tática, persuasão, necessidade e histórias.
Amanhã irei à praia. Mas antes, dormirei em boa cama, chicotearei de olhos fechados algumas atitudes e, silenciosamente, perdoarei minha alma com coragem e reflexão. Já os ambulantes dormirão na praia, alguns em casebres com largas frestas de cupins, e outros talvez nem descanso terão. Estarão lá com os mesmos ganha-pães nas costas, nas cabeças e onde mais puderem carregar.
Espero negar as investidas, e, quem sabe, até sorri, brincar, imitar os sotaques, passar algo de bom, olhá-los nos olhos, sei lá...
Gutto
Quando o ano inicia, sinto como se estivesse com a passagem comprada para a praia. O mês escolhido quase que inconscientemente é dezembro. Se tudo correr bem, quem sabe, alguns dias de janeiro acabam acomodando-se no prazo. Assim, fecho os olhos, abro-os novamente e... PÁ! Estou sentado naquela areia fofa em uma cadeira amarela - de plástico e com a marca de alguma cerveja, olhando o mar de poucas ondas espumadas.
Não uso relógio - falta de costume ou de paciência - e quando estou na praia não sinto necessidade de andar com o celular, mas a certeza de tempo passando é fenomenal. Trinta segundos! Em trinta segundos aparecerá ao norte de onde aponta minha retina algum ambulante vendendo alguma coisa que, naquele momento, certamente não me interessará:
- ÓIA O QUEIJO! ASSA NA HORA!
- ÓIA A CASTANHA! VAI AÍ FREGUESIA, SEM COMPROMISSO!
- ÓCULOS ESCUROS! PREÇO BOM!
- ÓIA O PASSEIO DE ESCUNA!
- ÓIA O MILHO! TÁ QUENTINHO, MELHOR MILHO DA PRAIA!
- TATUAGEM DE RENA! SÓ ESCOLHER!
Com exceção do milho e dos passeios de escunas no Pérola Negra, os demais vendedores praianos quase enfiam a mercadoria dentro dos nossos narizes. Decidi este ano não responder a nenhum. Nem sim nem não, nem nada! Simplesmente ignorá-los. Afinal, se tivesse que responder a todos que me oferecem algo de trinta em trinta segundos existiria grande chance de perder a cabeça e chamá-los aos berros de inconvenientes.
Lembro-me de Porto Alegre, onde os vendedores ambulantes que comercializavam as mercadorias de procedência duvidosa foram proibidos de perambular pelas ruas, designados assim, por lei, a levantar uma tenda no camelódromo. Já estas criaturas que cicatrizam as praias com suas peles absurdamente bronzeadas e maltratas pelos raios ultra-violeta ainda circulam com o pão de cada dia nas mãos, na cabeça, nas costas e onde mais conseguirem carregar.
Por sorte tenho momentos de reflexão dentro do ócio que conquistei a partir de minha própria vontade. Sinto-me pesado. Jamais queria ter desenvolvido um pensamento de repulsão por estes irmãos, lutadores da praia, cada qual com seu sotaque, sua tática, persuasão, necessidade e histórias.
Amanhã irei à praia. Mas antes, dormirei em boa cama, chicotearei de olhos fechados algumas atitudes e, silenciosamente, perdoarei minha alma com coragem e reflexão. Já os ambulantes dormirão na praia, alguns em casebres com largas frestas de cupins, e outros talvez nem descanso terão. Estarão lá com os mesmos ganha-pães nas costas, nas cabeças e onde mais puderem carregar.
Espero negar as investidas, e, quem sabe, até sorri, brincar, imitar os sotaques, passar algo de bom, olhá-los nos olhos, sei lá...
Gutto
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